A Mayra sai de casa muito cedo a caminho da escola. O sol nascente ilumina todo o bairro com muita alegria. As mães encontram-se na rua e varrem à porta. Para que o pó não se levante, borrifam o chão com água. Aquela mistura de água, de terra e de sol deita um cheirinho muito especial.
A Mayra tem 9 anos e, como muitas crianças da sua idade, adora aquele cheirinho.
Estava ela ainda toda embebida naquele perfume, quando se ouviu a voz da mãe:
"Não te esqueças de levar o teu lenço de assoar!"
Todos os dias pela manhã a senhora Sofia, sua mãe, lhe dá este conselho. Acontece que a Mayra, porque não consegue guardar a saliva na boca, se baba e tem que puxar constantemente pelo lenço para se limpar. Muitos meninos lá da escola enojam-se com isso.
A Mayra acena com a cabeça, como quem diz: Não, não me esqueci de modo nenhum!
A doença dela pode curar-se, mas teria que seguir um tratamento. Acontece, porém, que a família não tem dinheiro suficiente para isso.
Este problema incomoda-a muito e não gosta que estejam sempre a chamá-la à atenção. No entanto, reconhece que a mãe lhe fala assim para a proteger da troça e da risota dos outros.
A mãe levanta-se muito cedo todos os dias para preparar o pequeno-almoço, para que a Mayra e a irmã Maribel possam ir para a escola. Depois passa o resto do dia a descascar batatas.
À tarde, a senhora Sofia, vende "salchipapas"na rua. As salchipapas são um pacotinho de batatas fritas com salsichas à mistura.
A Mayra admira muito a mãe, que, todos os dias, se levanta muito cedo e se deita muito tarde.
Naquele dia, quando a Mayra chega à escola, já todos os alunos se encontram sentados. A professora pergunta-lhe por que razão chega atrasada, mas ela não responde.
A professora fica pensando que ela veio a brincar pelo caminho fora.
O Carlos, um dos rapazes da turma diz então: "A Mayra traz muitas coisas dentro da cabeça!"
A professora, surpreendida com a frase do Carlos, não insiste mais e fica a pensar lá para consigo: "Sem dúvida que é por causa disso que a Mayra chega atrasada! É uma coisa tão dolorosa sentir o olhar de censura dos companheiros que a razão do atraso dela deve ser essa."
A Mayra já se encontra instalada no fundo da sala, quando a professora responde ao Carlos:
"Tens muita razão, ela traz muitas coisas na cabeça..."
A professora está ao corrente que a Mayra vai cuidar da avó depois das aulas e que à noite ajuda a mãe. Também sabe que, às vezes, vai vender coisas para o centro da cidade.
"Toda a gente fez os trabalhos de casa? Dai-me os vossos cadernos!"
Todos entregam os cadernos. A Mayra, porém continua sentada. Uma vez mais, não fez os trabalhos da escola. Desde que perdeu o à-vontade na turma, nunca mais lhe apeteceu estudar.
Quando a professora está ocupada, a Mayra briga com as outras meninas no fundo da sala.
Assim, os companheiros da turma não querem mais trabalhar nem brincar com elas e a Mayra acaba por ter cada vez menos vontade de vir à escola.
A pouco e pouca começa a desleixar-se e deixa de cuidar de si própria. Até que um dia decide não mais voltar à escola. É então que a mãe vai ver a professora para lhe dizer:
"A minha filha não quer vir mais, porque os companheiros dela a tratam mal. Ela está muito revoltada e não me quer ouvir."
Na manhã seguinte a professora fala assim aos alunos:
"Penso que não sou uma boa professora, pois a Mayra não quer mais voltar às aulas! Não me dei conta de que a Mayra se encontrava assim tão mal. Quando uma menina deixa de vir, sinto-me culpada disso."
Ao ouvirem isto, alguns alunos levantam-se e dizem:
"Também sentimos que somos culpados"
"Chamámos-lhe nomes feios como: ranhosa! babosa!"
"Alguns de nós disseram-lhe que não queriam ser amigos dela."
Quando a escola acaba, os alunos vão ver a Maribel e pedem-lhe notícias da irmã Mayra.
A Maribel não os quer ouvir e responde:
"O que é que vocês querem saber da Mayra, visto que não gostam dela?"
As crianças mais preocupadas com a situação vão ao encontro da professora e pedem-lhe para ir a casa da Mayra.
"Nós portámo-nos muito mal e agora a irmã da Mayra não nos quer ouvir."
A professora vai até à casa da Mayra e vê-a a brincar na rua. A Mayra fica muito surpreendida, com medo de uma repreensão... Acontece, porém que a professora traz nos lábios um grande sorriso. Então a Mayra corre para ela e dá-lhe um beijo.
Também a convida a entrar em casa e apresenta-lhe a avó.
A professora conta-lhe o que se passou na escola.
"Os teus companheiros estão inquietos. Sentem a tua falta. Volta com a gente!"
A Mayra responde-lhe:
"Gosto de ir à escola mas sinto-me lá muito sozinha, triste e estúpida!"
A Professora insiste um pouco mais e antes de se ir embora diz-lhe:
"Quero que fiques a saber que os teus companheiros esperam por ti e eu também!"
Passados alguns dias, a Mayra regressa à escola. Todos os companheiros se sentem felizes e querem estar junto dela. Também a Mayra está muito contente.
Hoje, é o aniversário do Carlos. A Mayra dá-lhe os parabéns, oferece-lhe bombons e também ...
... lhe dá um beijinho na cara.
Acabas de ler a história verdadeira da Mayra. Podes escrever para Tapori a dizer-nos o que pensas.
Se estivesses na turma da Mayra que terias tu feito?
Que terias tu dito à Mayra para que ela voltasse à escola?
Conheces alguma criança parecida com a Mayra?
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